O dia em que eu desisti

Fomos criados para sermos vencedores o tempo todo. Desde a época da escola, o importante é ser o melhor da sala, vencer o campeonato de futebol, colecionar medalhas na natação. Aí chega a época do vestibular e nossos pais nos empurram para a carreira que paga melhor. Depois, vem o mestrado, doutorado, MBA… enquanto a vida real passa em brancas nuvens. E nós nos tornamos a triste geração que virou escrava da própria carreira.

Senti isso na pele. Escolhi a faculdade de Direito por livre e espontânea pressão, e quando encasquetei que eu queria ser Promotora ouvi do meu pai que era burrice, porque advogado ganha cem mil reais por mês. Ou Desembargadora. Ou Ministra do STF.

Terminei a faculdade, fiz pós-graduação, comecei a advogar e me decepcionei com a lentidão, a corrupção e a ineficiência do Poder Judiciário em nosso país. E nem sombra dos tais cem mil reais (rs). Aí resolvi que eu queria ser Juíza, para efetivamente servir a sociedade e promover a justiça e a paz social. Bora estudar para a Magistratura então, prova com 4 fases, sendo uma delas oral (detalhe – tenho pânico absoluto de falar em público).

Depois de um tempo, comecei a refletir sobre o estilo de vida de um Juiz de Direito e se era isso o que eu queria para a minha vida: trabalhar 18 horas por dia, aguentar bajulação barata e escolher entre ir ao supermercado com seguranças armados ou correr o risco de levar um tiro de algum vagabundo por aí. Receber um salário mensal de quase 50 mil reais, sem poder usufruir dele da maneira que bem entendesse, sempre temendo pela minha segurança e das pessoas que eu amo.

Só então me dei conta que o meu sonho nunca foi ser juíza, ou promotora, ou seja lá o que for. Não… meu sonho é conhecer o mundo. Ver a Aurora Boreal na Finlândia e os pinguins na Antártida. Mergulhar na Austrália e caminhar na Grande Muralha da China. Pegar uma praia no Caribe e outra no Recife.

E por que não? Por que o meu sonho precisa ser relacionado a essa ou àquela carreira? Para quem eu tenho que provar que sou a melhor, passando no concurso mais concorrido que existe? Por acaso quem tenta me impor essa ou aquela escolha vai aturar a péssima qualidade de vida que ela vai me acarretar? E será que uma carreira menos badalada também não tem sua relevância social?

Pois bem: desisti. Desisti de querer agradar os outros o tempo todo e passei a agradar a mim mesma. Desisti de querer provar para o mundo que eu sou a melhor em tudo o tempo todo – não sou nem quero ser. Desisti de deixar meus sonhos para depois, afinal não sei nem se esse “depois” realmente vai chegar.

Nem sempre desistir é sinônimo de derrota. Às vezes significa força de vontade para ser fiel ao que ama, garra para tomar as rédeas da própria vida e coragem para vencer o medo do julgamento alheio, que pode ser bem cruel por sinal.Como bônus, você descobre um universo de infinitas possibilidades que nunca tinha imaginado, e habilidades que você sequer sabia que tinha.

Vamos viver nossos sonhos, temos tão pouco tempo… E você, está vivendo o seu sonho ou o dos outros?

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6 comentários sobre “O dia em que eu desisti

  1. VOCÊ NÃO MERECE PALMAS, E SIM O TOCANTINS INTEIRO! rsrs
    Nossa, quase chorei agora. Amei a sua coragem de mudar, de viver a sua vida ao invés de viver a vida que projetaram pra você. Se todos fizessem isso, talvez haveria menos infelicidade no mundo. Meus parabéns! Beijinhos.
    bsalvan.wordpress.com

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  2. Que texto lindo! Eu estava pensando nisso há algum tempo… A gente está costumeiramente relacionando desistir com fraqueza ou algo do gênero, quando na realidade, não há mal nenhum nisso. Desistir faz parte da vida, acho que só não vale desistirmos de nós mesmos e eu ando nessa busca pessoal por me encontrar e compreender diariamente. Parabéns! Espero que consiga realizar seus sonhos! Beijos.

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  3. Menina, passei por algo parecido. Por um motivo desconhecido acoplado à insistência do meu pai para que eu ganhasse dinheiro, decidi fazer Economia. Por 3 anos tive uma qualidade de vida péssima, me sentia completamente desinteressada, estava sempre triste… Até que percebi que ninguém se importava! Nenhuma das pessoas que faziam questão de que eu continuasse na faculdade estava preocupada comigo. E ai abandonei. Foi um choque terrível e até hoje colho os frutos emocionais disto em minha autoestima. Entretanto, estou LIVRE. Livre para ser quem eu quiser e ir para onde quiser. Agora quero fazer Psicologia, espero que dê tudo certo!

    Obrigada por compartilhar sua experiência. Estou orgulhosa de você, espero que você também esteja ♥

    http://imperfeitaselindas.blogspot.com.br/

    Curtido por 1 pessoa

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