A curiosidade mórbida em tempos de internet

Por que fotos de corpos ensanguentados e carros destruídos dão tanta audiência?

Já faz algum tempo que as redes sociais deixaram de ser um modismo e passaram a fazer parte do nosso cotidiano. Hoje em dia são poucas as pessoas que conseguem ir à academia sem fazer check-in, comer uma refeição descolada sem postar no Instagram ou fazer um churrasco na casa dos amigos e não tirar nenhuma selfie. Aliás, quanto ao churrasco, a melhor parte da festa é registrar o porre do amigo em um book com 150 fotos, postar e esperar a zoeira.

Todo mundo acha legal expor ao máximo a própria vida e a alheia nas redes sociais, e os smartphones com câmera de alta definição facilitam isso. Felicidade não se mede mais em sorrisos, mas em curtidas e compartilhamentos. O que vale não é ir pra Paris, e sim tirar uma selfie com a Torre Eiffel.

Só que a vida perfeita um dia acaba. Também sob os holofotes.

A morte é um assunto que a maioria das pessoas evita e têm uma dificuldade enorme de elaborar. Mas sempre que morre uma celebridade ou acontece um desastre de grandes proporções, o que fazemos? Ficamos vidrados no noticiário, pesquisamos o assunto na internet, queremos saber de todos os detalhes.

Começam então a pipocar supostos vídeos do acidente, fotos de corpos desfigurados, sobreviventes agonizando, carros (ou aviões) em pedaços – não se sabe se tiradas por algum transeunte curioso, perito espírito de porco ou mesmo pescadas na própria internet, vindas de outro incidente qualquer. Prato cheio para hackers, que adoram usar a curiosidade para roubar dados de internautas desprevenidos.

Mas de onde vêm esse prazer em espalhar fotos macabras sem se preocupar em respeitar a dor dos entes queridos? A resposta mais convincente que o Google conseguiu me dar é a do psicólogo Daniel Grandinetti: a morte torna as pessoas comuns, ordinárias, devolve estrelas à condição de meros mortais.

“Dentro da nossa pele, vivemos uma realidade feita de carne e osso. Sofremos com nossa fraqueza, tememos a morte. Vivemos sempre em contato com a fragilidade humana que nos é própria, tanto a física quanto a emocional. Porém, a realidade humana das demais pessoas é idealizada por nós. Temos a tendência de considerar que a fragilidade que nos é própria está ausente nelas. É como se fôssemos a única pessoa de carne cercada por uma humanidade de semi-deuses. E todos nós contribuímos para que os outros formem de nós mesmos essa imagem. Todos se esforçam por esconder suas fraquezas. Todos se esforçam para passar aos outros a mesma imagem semi-divina que os outros também nos passam.

(…) Passamos a vida toda disfarçando nossa mísera mortalidade humana, e quando a morte chega, todos os disfarces caem por terra. Infelizmente, é apenas na morte que as pessoas revelam plenamente que também são feitas de carne e osso, como nós.
A morte dos outros é a ocasião que a pessoa comum tem de rebaixar o ideal ao real; é a ocasião em que ela pode diminuir a distância entre a imagem idealizada que faz da realidade alheia e a imagem humanamente crua que faz da sua própria. É neste instante que ela percebe que o outro é feito de carne, como ela, e que a carne do outro também fenece e deixa de ser, como também a dela um dia vai deixar de ser. “
 Fica a impressão de que a curiosidade mórbida na verdade é uma espécie de sadismo oculto, um prazer em saber que, apesar da vida perfeita do outro, ele também é feito da mesma matéria insignificante e frágil que todo o resto da Humanidade.
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10 comentários sobre “A curiosidade mórbida em tempos de internet

  1. Na realidade eu acho que isso sempre aconteceu… Lembro do acidente dos Mamonas assassinas… Eu cheguei a ver fotos do acidente, pq um dos supostos bombeiros tirou e saiu fazendo cópias para quem quisesse. Acho a análise do psicólogo bem válida e acrescento que o ser-humano é curioso com tudo, sobretudo com a morte… Na realidade a internet só intensificou e facilitou a distribuição desse tipo de coisa. :/

    Beijos e parabéns pelo blog.

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  2. Muito bom o post, parabéns. Você escreve super bem, é gostoso de ler e tenho certeza que qualquer assunto me prenderia como esse pela forma que você o coloca, sobre o assunto, sou super curiosa também, tenho vontade de ver as imagens e nunca soube o porque,no entanto fico na vontade por respeito, eu particularmente não gostaria de virar espetáculo depois de morta 😦 . Estou te seguindo! Mamaedonadecasa.wordpress.com

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    • Obrigada pelo elogio, Edvania, fico feliz!! ^^
      Eu também tenho curiosidade, acho que é uma coisa meio que natural, mas fico revoltada com a falta de respeito das pessoas. Essa semana fiquei muito brava por causa do cantor que faleceu (que eu não conhecia nem gostava, mas enfim) e umas meninas em um grupo que eu participava no whats app ficaram postando as fotos e o vídeo. Aí falei, já pensou se fosse o pai de vocês? A resposta: meu pai não é famoso. Então porque o moço era famoso, pode tudo??? Muito chato isso, muita falta de respeito. Por sinal os funcionários que fizeram as fotos foram demitidos e indiciados pela polícia.
      Bem-vinda, obrigada por seguir!! Beijo!

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    • Hahaha que bom que gostou!!! Isso é uma coisa que me incomoda muito e me deixa triste, mas é o que você disse, o ser humano é um bicho MUITO estranho mesmo!!!
      O blog tá meio paradinho essa semana porque o trabalho tá puxado, mas logo logo tem novidades! Beijo!!

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  3. Quando comecei a ler me lembrei de uma música do Renato “É sangue mesmo, não é mertiolate, todos querem ver e comentar a novidade, é tão emocionante um acidente de verdade, estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre (…)” e parece que desde sempre foi assim.
    A visão do especialista faz todo sentido, é como se só a morte fosse capaz de provar que somos iguais. Tbm penso que sempre houve esse interesse mórbido e com a internet isso só foi ampliado e até foge do nosso controle, é impossível não receber esse tipo de material em meio os grupos do whatsapp.. .

    Parabéns pelo texto!

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