perdão

O que se perde enquanto os olhos piscam

Ciúmes, inveja, incompreensão, falta de empatia… Esses são alguns dos sentimentos que fazem tremer as bases de um relacionamento interpessoal. Mas eu me arrisco a dizer que o pior dos venenos é o orgulho.

O orgulho que te faz querer provar a todo custo que você está certo, independente do quanto vai machucar a outra pessoa. O orgulho que te faz acreditar que qualquer vivência do outro tem o único e exclusivo objetivo de te machucar. O orgulho que afasta pessoas que se gostam pelo simples fato de que nenhuma das duas quer dar o braço a torcer. O orgulho de remoer palavras amargas que foram ditas em um momento de raiva.

Somos humanos. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Temos desejos inconfessáveis, vontades reprimidas, medo da solidão, medo da entrega. Medo de entrar em uma disputa e sair perdendo. E o medo encobre tanto a vista que chega um ponto em que sequer conseguimos lembrar como a disputa começou.

Ao mesmo tempo em que constrói muralhas, o orgulho derruba pontes. E num piscar de olhos, tudo o que levou anos para ser conquistado pode acabar indo pelo ralo. Confiança, companheirismo, respeito. Pelo medo de estender a mão e compreender que o outro é tão humano quanto você e que a dor dele pode ser pior que a sua. Será que vale a pena?

Perdão não é fraqueza. É sinal de humanidade. É entender a fragilidade do outro e abraçar a sua própria. A vida é frágil, assim como nossos laços. Por que não começar a construir mais pontes em vez de muros?

(P.S.: emprestei o título do artigo de uma música do Teatro Mágico que me veio junto com a inspiração.)

24 passos simples para uma vida infeliz

Saiba o que fazer para conquistar uma vida repleta de frustrações, amargura e arrependimentos. (In)satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta!

 

1. Agrade todo mundo o tempo todo, a qualquer custo.

2. Passe por cima das suas vontades para satisfazer os desejos dos outros.

3. Seja onipotente! Tudo o que existe em torno de você deve passar pelas suas mãos e pelo seu poder de decisão.

4. Leia revistas femininas. Sim, aquelas que te ensinam a agarrar o cara perfeito, ser uma deusa na cama ou seguir as tendências de moda. (O leitor é homem? Troque pela Playboy, cheia de mulheres fotoshopadas e inatingíveis).

5. Essa é infalível: carregue nas costas todos os problemas do mundo, e acredite piamente que você tem que resolvê-los sozinhos.

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Linhas tortas

Não me considero lá uma pessoa muito religiosa, mas tenho fé em Deus e acredito que o que é pra ser nosso acaba sendo, de uma maneira ou de outra. Aliás, acho que Ele tem um senso de humor bem peculiar, pois geralmente isso acontece da maneira mais torta e irônica possível — mas acontece.

Com uma ressalva: você tem que ralar. Afinal, se caísse do céu, seria tudo muito fácil e entediante, não é? Nananina. “Quer alguma coisa, filhão? Eu te ajudo, mas vai atrás. Dê seu sangue pra eu ver se você merece.”

E quem disse que Deus não curte ciência? É a primeira lei de Newton: um corpo em repouso tende a permanecer em repouso, e um corpo em movimento tende a permanecer em movimento.

Portanto, se você está de saco cheio da sua vida, pare de reclamar no Facebook e de alugar o ouvido dos seus amigos e tome uma atitude. Vá lá e faça. Mude. Saia da inércia. Enquanto você não tomar as rédeas dos seus problemas e pensar em uma solução concreta, eles vão continuar lá. Deus não vai descer pra segurar na sua mãozinha e te mostrar o que você tem que fazer  — e não faz diferença nenhuma o quanto você pagou de dízimo o mês passado.

Eu sei que é difícil largar o emprego que você odeia ou o relacionamento que já declarou falência faz tempo. Comece devagar, então. Que tal aquele corte de cabelo que você sempre amou mas nunca teve coragem de fazer? Se não der certo, cabelo cresce. Se der, você ganha coragem e um up na autoestima. A “zona de conforto”, de confortável, não tem nada: é uma região tóxica e sufocante, que rouba a sua vontade de viver dia após dia.

De vítimas das circunstâncias o mundo já está cheio. Que tal começar a escrever a sua própria história?

(P.S.: li em algum lugar que quando uma mulher está de saco cheio, a primeira coisa que ela muda é o cabelo. Faz sentido, as duas mudanças mais radicais que eu já fiz no cabelo foram o começo das duas guinadas mais importantes que eu dei na minha vida, quando comecei a sair de onde eu estava e me perguntar onde eu quero chegar. Coincidência? Acho que não.)

(P.S. 2: achei mil imagens lindas pra esse post, mas TINHA que ser essa. Thelma e Louise, divas eternas!!!)

O pior de você

Amor é um bicho complicado. É fácil dizer que se ama alguém entre duas taças de vinho e alguns beijos na nuca, com borboletas no estômago e um céu brilhante lá fora. Mas quando a tempestade chega, as coisas mudam.

Difícil é amar em tempos de vacas magras e sorrisos escassos. Quando nem tudo sai como se espera e quase nada como se deseja. Quando você olha nos olhos do outro e consegue ver o abismo que há em sua alma.

Sim, há um abismo na sua alma, assim como há na minha, e o meu não é mais belo que o seu. Tenho medo de altura, que dirá de abismos… Tenho medo de não suportar o meu, que dirá de conviver com o seu. Mas vi o pior de você e ainda assim não quero ir embora, porque sei que o seu melhor você reserva pra mim. Acho que agora posso dizer com toda a certeza que eu te amo.

Sobre (des)apego e outras coisas

Esses dias li um texto que dizia que “desapego é questão de hábito”. Mas o que fazer quando parece que você é uma pessoa geneticamente programada a se apegar a tudo o que entra na sua vida?

Como boa adolescente ingênua, eu sonhava com casamento de véu e grinalda e uma casa com piscina, filhos e cachorro, no melhor estilo comercial de margarina. Só que depois de sucessivos tapas na cara da vida real, comecei a pensar que relacionamentos só servem para criar laços que impreterivelmente terão que ser desatados um dia. Normalmente de maneira longa, arrastada e dolorosa para ambas as partes.

Pessoas que têm mania de se doar demais e dar o sangue para fazer funcionar algo que está destinado a não fazer sentido acabam se perdendo totalmente no meio do caminho. E pode ser que de tanto dar, no fim não sobre nada para si além de uma casca oca e vazia.

Talvez o caminho para conseguir estar com alguém sem deixar de estar consigo mesma seja apegar-se desapegando, destinando ao outro apenas um pequeno compartimento da sua vida que não se sobreporá a nenhum dos outros. A questão é: como?

Eu não nasci pra ser exemplo

Por que você ainda vive preso a um estilo de vida que não te define?

Mudaram as estações, nada mudou. Depois da era do amor livre, dos hippies e do movimento feminista, a sociedade ainda continua muito clara quanto ao que espera de nós.

Seja um bom aluno, passe no vestibular, entre na universidade, consiga um bom estágio, depois um bom emprego, namore, case – no papel e na igreja – e tenha filhos. Compre uma casa, almoce com a família aos domingos, tenha o carro do ano e um bom plano de saúde.

Nesse meio tempo, trabalhe dez horas por dia para sustentar parasitas: pague em dia o dízimo, os impostos e o carnê do carro. Consuma cada vez mais e tenha cada vez menos: menos tempo, menos saúde e menos vontade própria. Sua vida é perfeita, o que mais você pode querer? E trabalhe até a morte, pois o trabalho dignifica o homem (com o tanto que você bebe e fuma, dificilmente chegará à a aposentadoria, mas quem se importa? Um “vagabundo” a menos para onerar a Previdência Social).

Por que diabos tem que ser assim?

E se eu quiser largar tudo pra viajar o mundo, viver de fotografia ou trocar trabalho por hospedagem e comida? E se eu resolver investir no esporte que sempre amei em vez de passar a vida de terno e gravata? E se eu preferir um relacionamento sem rótulos que me faça bem, ou até mesmo relacionamento nenhum? Qual o problema?

A igualdade da maneira como está na Constituição não existe. Somos todos diferentes, com diferentes sonhos, aspirações, desejos. Por que então temos que seguir o mesmo script?

Resposta: não temos. Mas é preciso coragem para abandonar o que a sociedade quer de nós e descobrir o que nós queremos da vida.

(Publicado originalmente em Puta Letra)

Você é “boazinha” demais?

Muita gente acha que ser “boazinha” (ou “bonzinho”, whatever) é uma virtude, que doar-se completamente sem esperar (nem receber) nada em troca é o caminho para a luz. Pode ser para os santos e os mártires, mas para nós, meros mortais, não é bem assim.

Na maioria das situações, quanto mais “boazinha” for, mais você se torna capacho dos outros.

Quer ver?

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O dia em que eu desisti

Fomos criados para sermos vencedores o tempo todo. Desde a época da escola, o importante é ser o melhor da sala, vencer o campeonato de futebol, colecionar medalhas na natação. Aí chega a época do vestibular e nossos pais nos empurram para a carreira que paga melhor. Depois, vem o mestrado, doutorado, MBA… enquanto a vida real passa em brancas nuvens. E nós nos tornamos a triste geração que virou escrava da própria carreira.

Senti isso na pele. Escolhi a faculdade de Direito por livre e espontânea pressão, e quando encasquetei que eu queria ser Promotora ouvi do meu pai que era burrice, porque advogado ganha cem mil reais por mês. Ou Desembargadora. Ou Ministra do STF.

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Grávida de mim mesma

Acho a maternidade uma coisa linda, admiro as “mães coragem”, que abrem mão da própria vida para não deixar que nada falte a seus filhos, a começar pela minha. Mas acho que nem todas as mulheres nasceram pra isso. Por exemplo, eu.

Esse ano foi bastante “fértil” para as minhas amigas. Perdi as contas de quantas gestações acompanhei, quantas visitas fiz à maternidade, quantos bebês lindos e rechonchudos tive em meus braços. Não vou mentir: acompanhar as alegrias de cada amiga gestante desperta no meu subconsciente aquela dúvida – “…e se?”

Não. Não quero ser mãe.

Em parte por ter sido obrigada a crescer muito cedo, e muito antes da chegada da maturidade. Talvez por ter cuidado de tanta gente ao longo da minha curta existência, ou de me sentir tão pouco cuidada em contrapartida. Até mesmo por medo de ter um laço eterno e indissolúvel com outra(s) pessoa(s).

Não quero relações inquebráveis, quero liberdade. Quero escolher o que me convém, pensando apenas na minha própria felicidade. Quero a possibilidade de partir quando quiser, de comprar uma passagem só de ida para o Sul e começar tudo de novo quando eu bem entender. Quero conhecer o mundo, ver todas as cores, ouvir todos os sons, sentir todos os êxtases. E cansei de condicionar tudo isso a outras pessoas.

Estou grávida de mim mesma, embalando os meus próprios sonhos. E nesse colo não cabe mais ninguém.