Aquele velho amigo, o vazio

A literatura de conselhos para levar uma vida perfeita é bem vasta. Da psicologia à auto ajuda, da filosofia à publicidade, do paganismo ao Alcorão, crescemos, vivemos e morremos ouvindo o que deveríamos fazer (e culpando a nós mesmos por não seguir à risca as instruções.

Ame a si mesmo. Encontre um amor. Case, tenha dois filhos, três cachorros e o carro do ano. Se mate de estudar, depois de trabalhar, para poder se aposentar e curtir a vida. Venda tudo, compre um trailer e saia pelo mundo sem destino.

Compre os gadgets do momento. Troque o guarda-roupa a cada estação. Frequente a balada da moda, use o perfume da moda e saia com pessoas lindas, loiras e saradas.

Faça o que ama, ame o que faz e nunca será mais um frustrado na multidão de engravatados (tá, essa piada pelo menos é boa).

Exercite-se. Recicle o lixo. Adote um animal. Vá à igreja.

Be yourself. Go vegan. Just do it.

Mas no fundo, no fundo mesmo, não importa o que você faça, ele sempre vai estar lá te observando. Triste, silencioso e profundo. Vai esperar o momento errado para bater na sua porta, como um antigo amor que resolve surgir do nada depois que você já conseguiu, a muito custo, curar suas feridas. Sufocante e impiedoso, te faz acreditar que nada faz sentido e que você não pertence a lugar nenhum. Às vezes, ganha um nome comercial: crise dos 20, dos 25, dos 30, do profissional recém formado, dos 7 anos de casados. Mas é sempre o mesmo, e ri da sua cara enquanto você se culpa por estar num “momento ué” sem nenhum motivo aparente.

É quando você pára e pensa: seria mais fácil encontrar a resposta se eu ao menos soubesse qual é a pergunta?

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Linhas tortas

Não me considero lá uma pessoa muito religiosa, mas tenho fé em Deus e acredito que o que é pra ser nosso acaba sendo, de uma maneira ou de outra. Aliás, acho que Ele tem um senso de humor bem peculiar, pois geralmente isso acontece da maneira mais torta e irônica possível — mas acontece.

Com uma ressalva: você tem que ralar. Afinal, se caísse do céu, seria tudo muito fácil e entediante, não é? Nananina. “Quer alguma coisa, filhão? Eu te ajudo, mas vai atrás. Dê seu sangue pra eu ver se você merece.”

E quem disse que Deus não curte ciência? É a primeira lei de Newton: um corpo em repouso tende a permanecer em repouso, e um corpo em movimento tende a permanecer em movimento.

Portanto, se você está de saco cheio da sua vida, pare de reclamar no Facebook e de alugar o ouvido dos seus amigos e tome uma atitude. Vá lá e faça. Mude. Saia da inércia. Enquanto você não tomar as rédeas dos seus problemas e pensar em uma solução concreta, eles vão continuar lá. Deus não vai descer pra segurar na sua mãozinha e te mostrar o que você tem que fazer  — e não faz diferença nenhuma o quanto você pagou de dízimo o mês passado.

Eu sei que é difícil largar o emprego que você odeia ou o relacionamento que já declarou falência faz tempo. Comece devagar, então. Que tal aquele corte de cabelo que você sempre amou mas nunca teve coragem de fazer? Se não der certo, cabelo cresce. Se der, você ganha coragem e um up na autoestima. A “zona de conforto”, de confortável, não tem nada: é uma região tóxica e sufocante, que rouba a sua vontade de viver dia após dia.

De vítimas das circunstâncias o mundo já está cheio. Que tal começar a escrever a sua própria história?

(P.S.: li em algum lugar que quando uma mulher está de saco cheio, a primeira coisa que ela muda é o cabelo. Faz sentido, as duas mudanças mais radicais que eu já fiz no cabelo foram o começo das duas guinadas mais importantes que eu dei na minha vida, quando comecei a sair de onde eu estava e me perguntar onde eu quero chegar. Coincidência? Acho que não.)

(P.S. 2: achei mil imagens lindas pra esse post, mas TINHA que ser essa. Thelma e Louise, divas eternas!!!)

A sua infelicidade é problema seu

Algumas pessoas parecem alimentar-se da infelicidade alheia. Destilam amargura em cada palavra e usam seu desdém como uma metralhadora giratória, atingindo tudo ao seu redor. Cada ato serve única e exclusivamente ao propósito de diminuir o outro e atingir seu ego como uma faca.

Essas pessoas começam devagar, gritando suas dores, se autoflagelando em público e ressaltando sua condição de eternas vítimas das agruras da vida. Quando não conseguem mais a piedade alheia, passam para uma estratégia mais destrutiva, atacando o outro para se sentir superior.

Posso te contar uma coisa? Há sofrimentos muito maiores do que o seu no mundo. A sua insatisfação profissional, o seu amor perdido, a sua falta de amor próprio são fichinha perto de tantas catástrofes que acontecem diariamente mundo afora. Procure consolo em um ombro amigo, no divã de um psicólogo, em livros de autoajuda, no chocolate, no álcool ou no raio que o parta, mas não desconte suas frustrações em cima de ninguém.

Você não tem a menor ideia do que se passa na vida do outro. Sabe aquela felicidade aparente que você tanto se esforça para azedar? Talvez as dores dele sejam muito mais profundas e silenciosas. E talvez as cicatrizes das suas palavras ácidas fiquem gravadas para sempre.

Ninguém tem o direito de esfregar a própria infelicidade na cara dos outros. Suas frustrações são problema seu, fruto das suas próprias decisões. Seja adulto, assuma e faça algo a respeito em vez de culpar terceiros, Deus ou o diabo.