Solitude

Ela já teve as fases de devorar toneladas de doces, fazer poses no espelho, escrever poemas, trocar a cor das unhas, virar a noite em games, comprar compulsivamente e pesquisar sobre assuntos aleatórios às 3 da manhã. Hoje ela pinta os cabelos e planeja viagens imaginárias para lugares que talvez nunca venha a conhecer. Amanhã talvez seja o dia de sentar-se na praça e inventar histórias recheadas de detalhes interessantes sobre quem passa na rua. Afinal, todos temos que dar algum sentido à solidão. Ou esquecer por um momento da nossa pequenez diante do universo.

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Aquele velho amigo, o vazio

A literatura de conselhos para levar uma vida perfeita é bem vasta. Da psicologia à auto ajuda, da filosofia à publicidade, do paganismo ao Alcorão, crescemos, vivemos e morremos ouvindo o que deveríamos fazer (e culpando a nós mesmos por não seguir à risca as instruções.

Ame a si mesmo. Encontre um amor. Case, tenha dois filhos, três cachorros e o carro do ano. Se mate de estudar, depois de trabalhar, para poder se aposentar e curtir a vida. Venda tudo, compre um trailer e saia pelo mundo sem destino.

Compre os gadgets do momento. Troque o guarda-roupa a cada estação. Frequente a balada da moda, use o perfume da moda e saia com pessoas lindas, loiras e saradas.

Faça o que ama, ame o que faz e nunca será mais um frustrado na multidão de engravatados (tá, essa piada pelo menos é boa).

Exercite-se. Recicle o lixo. Adote um animal. Vá à igreja.

Be yourself. Go vegan. Just do it.

Mas no fundo, no fundo mesmo, não importa o que você faça, ele sempre vai estar lá te observando. Triste, silencioso e profundo. Vai esperar o momento errado para bater na sua porta, como um antigo amor que resolve surgir do nada depois que você já conseguiu, a muito custo, curar suas feridas. Sufocante e impiedoso, te faz acreditar que nada faz sentido e que você não pertence a lugar nenhum. Às vezes, ganha um nome comercial: crise dos 20, dos 25, dos 30, do profissional recém formado, dos 7 anos de casados. Mas é sempre o mesmo, e ri da sua cara enquanto você se culpa por estar num “momento ué” sem nenhum motivo aparente.

É quando você pára e pensa: seria mais fácil encontrar a resposta se eu ao menos soubesse qual é a pergunta?

Insônia

Por mais que a gente saiba que tem algo errado, sempre vai adiando o momento de cair na real. É mais cômodo se contentar com meias verdades, com migalhas de afeto ou com restos de algo que talvez nunca tenha sequer existido. É mais fácil criar um cenário de fantasia onde colocamos imperfeições num pedestal, sem lembrar que quando elas caírem, te levarão junto. É mais simples deixar a sua bagunça de lado para tentar compreender a do outro.

Hoje o sono não virá. Em vez de lutar em vão contra a madrugada, me debruço sobre a última flor do Lácio. Quisera chegar ao vazio de não sentir, não tentar, não amar.

Fica o conselho: não deixe para amanhã a decepção que você pode sofrer hoje. Amanhã vai doer mais.

E agora, um poema

Depois de mais de dez anos, resolvi me arriscar a escrever em verso de novo. Gostei, a escrita flui ainda mais visceral. Espero que gostem também.

Fatiga os ombros como o peso das memórias

Retalha o peito como mil facas em brasa

Invade a alma como o frio da solidão

Amarga a língua como o gosto do fracasso

Transborda os olhos como o sangue da derrota

“Dessa vez vai ser diferente”. Ledo engano. 

You’ll never be good enough.

Quem nunca foi a garota do canto?

Espero que meus (poucos) leitores fiéis perdoem o imperdoável: estou sem tempo para escrever. Sem tempo, sem inspiração, sem ânimo, sem “pegada”. E numa fase não das melhores, em que o tempo se arrasta à espera de dias melhores.

Enquanto a inspiração não volta, fiquem com a “garota do canto” — na qual, pasma, identifiquei um retrato do meu passado não muito distante e de muitos momentos do meu presente. Há muitas “garotas do canto” por aí; há um pouco da “garota do canto” em todas nós.

Quem nunca foi a garota do canto?

A garota do canto espera a sua vez, não por educação, nem por paciência; espera porque espera. Espera porque não aprendeu a se levantar.

A garota do canto gosta de tomar chuva, mas desconhece que gosta. A garota do canto jamais se perguntou sobre o que gosta. Nunca publicou um texto do seu diário. A garota do canto é tom pastel. É uma música que não faria tanta diferença. É a sessão de cinema, seguida de pizzaria e nada para dizer a respeito do filme. É vampira, sem reflexo no espelho.

(leia mais no blog Entenda os Homens)