Sobre resiliência, ansiedade e dor

Na psicologia, resiliência significa a capacidade de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão, administrando as próprias emoções e evitando agir com base em impulsos.

Para quem sofre de ansiedade, o buraco é um pouco mais embaixo. Você cria cenários improváveis na mente, sofre pelo antes, pelo durante e pelo depois, antecipa o futuro, porque conviver com a incerteza é quase insuportável. Como se não bastasse a inquietude, qualquer problema mínimo traz o combo insônia + dor de estômago + enjoos. E o desespero em resolver o problema, na maioria das vezes, vira um tiro pela culatra.

E a dor… ah, a dor. Parece que vai arrancar suas entranhas pela boca. Sempre achei que não podia existir nada pior que a dor. Você passa a vida tentando fugir dela, e a tentativa de fuga acaba se transformando em um atalho. “Toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”, já dizia Renato Russo.

É quando você se depara com a paralisia e a impotência. Quando chega aquele momento em que nem as lágrimas conseguem sair mais, e fica apenas o vazio. Quando você é obrigada a se conformar com a decisão de Deus, do Universo, ou seja lá do que for, porque não sobrou nenhuma possibilidade de mudança através das suas mãos. Quando a finitude da vida e de todas as coisas te observa com aquele olhar implacável e te obriga a perceber que tudo é volátil.

O que é a dor comparada ao entorpecimento da anestesia? Pelo menos, a dor te faz sentir que a vida ainda pulsa nas veias.

Insônia

Por mais que a gente saiba que tem algo errado, sempre vai adiando o momento de cair na real. É mais cômodo se contentar com meias verdades, com migalhas de afeto ou com restos de algo que talvez nunca tenha sequer existido. É mais fácil criar um cenário de fantasia onde colocamos imperfeições num pedestal, sem lembrar que quando elas caírem, te levarão junto. É mais simples deixar a sua bagunça de lado para tentar compreender a do outro.

Hoje o sono não virá. Em vez de lutar em vão contra a madrugada, me debruço sobre a última flor do Lácio. Quisera chegar ao vazio de não sentir, não tentar, não amar.

Fica o conselho: não deixe para amanhã a decepção que você pode sofrer hoje. Amanhã vai doer mais.

E agora, um poema

Depois de mais de dez anos, resolvi me arriscar a escrever em verso de novo. Gostei, a escrita flui ainda mais visceral. Espero que gostem também.

Fatiga os ombros como o peso das memórias

Retalha o peito como mil facas em brasa

Invade a alma como o frio da solidão

Amarga a língua como o gosto do fracasso

Transborda os olhos como o sangue da derrota

“Dessa vez vai ser diferente”. Ledo engano. 

You’ll never be good enough.

A sua infelicidade é problema seu

Algumas pessoas parecem alimentar-se da infelicidade alheia. Destilam amargura em cada palavra e usam seu desdém como uma metralhadora giratória, atingindo tudo ao seu redor. Cada ato serve única e exclusivamente ao propósito de diminuir o outro e atingir seu ego como uma faca.

Essas pessoas começam devagar, gritando suas dores, se autoflagelando em público e ressaltando sua condição de eternas vítimas das agruras da vida. Quando não conseguem mais a piedade alheia, passam para uma estratégia mais destrutiva, atacando o outro para se sentir superior.

Posso te contar uma coisa? Há sofrimentos muito maiores do que o seu no mundo. A sua insatisfação profissional, o seu amor perdido, a sua falta de amor próprio são fichinha perto de tantas catástrofes que acontecem diariamente mundo afora. Procure consolo em um ombro amigo, no divã de um psicólogo, em livros de autoajuda, no chocolate, no álcool ou no raio que o parta, mas não desconte suas frustrações em cima de ninguém.

Você não tem a menor ideia do que se passa na vida do outro. Sabe aquela felicidade aparente que você tanto se esforça para azedar? Talvez as dores dele sejam muito mais profundas e silenciosas. E talvez as cicatrizes das suas palavras ácidas fiquem gravadas para sempre.

Ninguém tem o direito de esfregar a própria infelicidade na cara dos outros. Suas frustrações são problema seu, fruto das suas próprias decisões. Seja adulto, assuma e faça algo a respeito em vez de culpar terceiros, Deus ou o diabo.